Como dizer "não" de forma honesta e cuidadosa?

Atualizado: 6 de jun. de 2021

Pessoas prestativas me entenderão: é muito bom ajudar, atender as expectativas dos outros e vê-los satisfeitos.

É ótimo ter a sensação de que as pessoas gostam de nós e sermos lembrados pelas experiências agradáveis que pudemos proporcionar a elas.

Mas ser prestativo demais, a ponto de fazer concessões de questões essenciais, não compra a admiração dos outros, apenas os convence de que você cede com facilidade.

Portanto, como agir quando o pedido de alguém NÃO faz sentido para nós?

Como dizer “não” aos pedidos das outras pessoas sem ofender ou humilhar?

Como não se submeter às exigências de superiores e colegas e preservar o relacionamento?

Seguindo a leitura, você encontrará sugestões de como fazer isso.


Dizer “não” é muito importante

Você já trabalhou com pessoas que não tem a habilidade de dizer “não”?

É tenso.

Geralmente, elas vivem sobrecarregadas, cansadas, no limite do estresse, o que faz elas serem pessoas difíceis de se conviver no dia a dia.

Ou são pessoas que costumam se comprometer com o que elas não dão conta, e acabam não conseguindo cumprir com os combinados.

Pessoas que não determinam limites que cuidam de si mesmas não conseguem cuidar das pessoas à volta delas de forma efetiva e sustentável.

Portanto, pare de pensar que dizer “não” é algo ruim.

Quando você diz “sim” querendo dizer “não” você não está sendo honesto. Nem consigo mesmo, nem com a outra pessoa.

Você acaba agindo por obrigação. E agir por obrigação uma única vez, até que vai. Mas agir com a energia da obrigação dia após dia, ano após ano, te torna uma pessoa que nem mesmo você quer ao lado.

As pessoas querem trabalhar com quem pratica as virtudes da honestidade e da responsabilidade. Essas virtudes não são dons inatos. São escolhas racionais a se fazer, momento a momento.

Então veja a seguir algumas mudanças de perspectiva que podem te ajudar a construir o seu “não” honesto e cuidadoso.


1. Não responda imediatamente

Receba o pedido e acalme o impulso de dar a primeira resposta que vem à mente.

Não responder imediatamente fica mais fácil se o canal de comunicação for e-mail ou whatsapp.

Mas se você estiver cara a cara com a outra pessoa, gentilmente, peça um tempo para pensar.

Você pode dizer, por exemplo: “Vou checar a programação da semana e te ligo para dizer se será possível.”

Ou “Posso pensar e te responder amanhã de manhã?”

Se você estiver numa situação onde não dar uma resposta imediata possa trazer algum dano, ao menos tome algumas respirações antes de responder.

Presença no aqui e agora é a habilidade chave. Pressa, preocupações e multitarefa podem te distanciar dessa qualidade de presença e te desconectar de sua própria sabedoria.

Um “não” cuidadoso e honesto precisa ser bem planejado.

“Fale quando estiver com raiva, e você fará o melhor discurso do qual se arrependerá para sempre.” Ambrose Bierce

2. Tenha clareza sobre as suas necessidades

Quando você quer dizer “não” para alguém, existe um “sim” para alguma necessidade sua.

Você está tentando proteger algo que é importante para você. Tente descrever isso em palavras.

Por exemplo, se alguém te faz o seguinte pedido:

“Entre em contato com esse fornecedor e peça mais desconto!”

E você quer responder “Não, não irei fazer isso! Esse já foi o segundo desconto que ele deu. Você está abusando!”

O que é importante para você quando pensa isso? Seria valorizar o esforço do fornecedor pelos descontos oferecidos e pelo trabalho que ele realiza? Seria agir de uma forma que você considera justa? Você quer preservar o relacionamento com o fornecedor, e pedir mais desconto ainda colocaria isso em risco?

Perguntas chave:

O que te preocupa?

O seu “não” tenta proteger?

Quais danos você está tentando evitar?

Autoconhecimento e conexão consigo mesmo são habilidades importantes nesse momento.


3. Investigue melhor o pedido

Faça perguntas para compreender melhor as expectativas e as necessidades da pessoa que te fez o pedido, mesmo que esse pedido tenha sido expressado em forma de uma exigência.

Jamais deduza, de imediato, que você compreendeu o pedido em sua inteireza.

Para isso, será necessário suspender os julgamentos que você construiu sobre aquela pessoa, ao menos temporariamente.

Seguindo o exemplo anterior, se o seu chefe diz “Entre em contato com esse fornecedor e peça mais desconto!”, você poderia investigar o pedido dele por meio das seguintes perguntas:

"Quanto você gostaria de investir nisso?"

"Quais as suas referências para determinar um valor justo para esse produto?"

"Você considera insuficiente os dois descontos anteriores que ele ofereceu?"

Aqui entram em cena as habilidades de escuta ativa e a curiosidade genuína.


4. Proponha estratégias que atendam às necessidades de todos

“Não estamos um contra o outro. Somos nós contra o problema.” William Ury

Pessoas que só pensam nas suas próprias necessidades e não consideram os impactos que as suas ações geram nos outros são as que rotulamos de egoístas.

Lembre-se: a intenção de gerar benefício mútuo é o que preserva as relações.

Mas temos uma barreira a ser rompida para chegar nesse lugar. É pensamento binário ou dualista, o mais habitual na nossa cultura.

O pensamento binário é o pensamento do "ou é do meu jeito, ou é do seu".

Esse é um pensamento que restringe possibilidades e nos coloca uns contra os outros. Ele parte da escassez e nos leva a um estado defensivo, permeado pelo medo de perder.

O benefício mútuo tem raízes no pensamento complexo que, em vez de ser regido pelo pensamento “ou/ou”, guia-se pelo pensamento do “e”. É a dádiva da complementaridade.

Não é o que é bom para mim, ou o que é bom para você. É o que é bom para mim e para você também.

Criatividade é a habilidade chave nesse momento. Mas, claro, se tiver sido acompanhada pelo diálogo.

Seguindo o exemplo anterior, o diálogo poderia seguir da seguinte forma:

Meu chefe: “Entre em contato com esse fornecedor e peça mais desconto!”

Em vez de eu responder: “Não, não irei fazer isso! Esse já foi o segundo desconto que ele deu. Você está abusando!”

Eu poderia perguntar: "Quanto você gostaria de investir nisso?"

Meu chefe: “Eu esperava pagar uns 50% desse valor.”

Eu poderia responder: “Chefe, penso que seja importante para a empresa manter um bom relacionamento com esse fornecedor. Acredito que colocarei isso em risco pedindo um terceiro desconto. Pelas pesquisas, para pagar o valor que você espera, precisaremos escolher outras marcas. O que você acha?”

Se não surgirem ideias de saídas que atendam às necessidades de todos, ao menos coloque-se aberto para sugestões e opiniões.


5. Respeite a reação do outro e persista no diálogo

Você está dizendo “não” para uma pessoa e quer que ela o compreenda.

Portanto, compreenda, também, as respostas negativas que vierem a você.

"Quando compreendemos as necessidades que motivam nosso comportamento e o comportamento dos outros, nós não temos inimigos." Marshall Rosenberg

Lembre-se que o “não” da outra pessoa nada mais é que a tentativa de proteger as necessidades dela.

Demonstrar empatia por elas pode abrir caminhos para que a busca por estratégias de benefício mútuo possam seguir sendo criadas.

Mas e se depois de todo esse esforço, a outra pessoa ainda reagir mal?

Sabemos que nós podemos influenciar a reação do outro, mas não podemos controlá-la.

Às vezes, a outra pessoa precisará de um tempo para aceitar o seu “não”.

Ao dizer “não”, você pode estar apresentando uma realidade nova, desconhecida, e portanto, desconfortável.

Entender que existe uma série de etapas emocionais que todos nós enfrentamos quando ouvimos más notícias nos ajuda a lidar com a reação do outro.

As etapas básicas são: fuga, negação, ansiedade, raiva, barganha, tristeza e aceitação.

Na prática, não existe rigidez nessa ordem. Os padrões variam de acordo com cada pessoa.

Muitas vezes, respeitar as fases emocionais das pessoas diante da sua resposta negativa é a melhor forma de contribuir.


Resumo:

1. Não responda imediatamente: Pare, respire, pense e planeje o seu “não”.

2. Tenha clareza sobre as suas necessidades: Do que o seu “não” está tentando cuidar?

3. Investigue melhor o pedido: Deduza menos e pergunte mais. Perguntas genuinamente curiosas.

4. Proponha estratégias que atendam às necessidades de todos O que pode ser bom para você e para o outro também?

5. Respeite a reação do outro e persista no diálogo Compreenda as necessidades do outro e as fases emocionais até a aceitação.


Lembre-se:

“Não trate as pessoas tão mal como elas são. Trate-as tão bem quanto você é.” Madre Teresa de Calcutá

Referências Bibliográficas:

Ury. W. O poder do não positivo: como dizer não e ainda chegar ao sim. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

Rosenberg, M. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. 1 ed. São Paulo: Ágora, 2006.


15 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo