O que é a Comunicação Não Violenta e como ela pode me ajudar no trabalho?

Atualizado: 1 de jun. de 2021

Comunicação não violenta (CNV) é a desautomatização da nossa forma de falar, de escutar e de pensar.

Por isso é uma ferramenta eficiente para a prevenção e resolução de mal entendidos.

Os mal entendidos tornam as equipes lentas, geram retrabalho, custam caro para a organização e desgastam os relacionamentos.

Ou seja, muita energia perdida, que poderia estar sendo direcionada para o que realmente importa: aproximar a organização do seu propósito maior.

A comunicação não violenta é um conjunto de princípios, conceitos e técnicas que tem como objetivo primário gerar conexão humana entre as pessoas.


Quais são os princípios da comunicação não violenta?

A comunicação não violenta é guiada pelo princípio ético da não violência, ou seja, a rejeição da violência e utilização de meios pacíficos para superar os conflitos. E o meio mais acessível nas questões da convivência do dia a dia é o diálogo.

Diante de uma tensão, não é preciso soltar os cachorros em cima dos outros, nem engolir sapo. Existe uma terceira saída. A não violência é esse caminho alternativo à opressão e à submissão.

Parte-se do princípio de que somos interdependentes, ou seja, não é possível eu estar plenamente bem, se as pessoas a minha volta não estão.

Por isso, a comunicação não violenta nos convida para os diálogos que visam o benefício mútuo, em vez dos debates onde as pessoas precisam derrotar as outras para se tornarem as únicas vencedoras.

Buscamos a construção de lideranças que saiam do paradigma da utilização do “poder sobre” as pessoas, e caminhem para a utilização do “poder com” elas.

O objetivo é que a motivação para a cooperação não seja o medo de punições ou promessas de recompensas. Mas sim, o desejo de contribuir para o bem-estar de si, das pessoas em volta, da organização à qual estamos inseridos e de todo o sistema.


O que a comunicação não violenta nos ensina?

1. Separar os fatos dos julgamentos

A comunicação não violenta nos ensina a separar o que realmente aconteceu (fatos observáveis, ou observações) do que pensamos sobre o que aconteceu (nossos julgamentos).

Por exemplo, se vejo Eduardo usando o celular durante a reunião (fato observável), logo penso “Eduardo não está nem aí” (meu julgamento).

O convite da comunicação não violenta é fazer esse caminho de volta, saindo dos julgamentos e buscando olhar para os fatos que são observáveis por qualquer observador.

Queremos trabalhar com base em fatos, e não em julgamentos pessoais e individuais.


2. Perceber e dar nome aos sentimentos

Por mais que olhar para os sentimentos possa ser um convite incomum no ambiente de trabalho, não podemos fugir do fato de que o ser humano é 100% razão e 100% emoção.

Se você está vivo, você tem sentimentos. Sejam eles confortáveis ou desconfortáveis.

Nós só sabemos lidar com aquilo que conhecemos. Por isso, quando suprimimos nossas emoções, elas se exacerbam ao longo do tempo.

O convite da comunicação não violenta é para estarmos atentos aos nossos sentimentos, momento a momento.

Por exemplo:

“Quando vejo Eduardo usando o celular durante a reunião, me sinto incomodada.”

Como os nossos hábitos de acusar são mais fortes que o de nos conectar aos sentimentos, temos um curto repertório de palavras que expressam sentimentos, o que faz parecer difícil identificar o que estamos sentindo.

Por isso, a comunicação não violenta oferece uma lista de palavras sugestivas de sentimentos que nos apoia nessa prática.

Se expressar a partir dos seus sentimentos, em primeira pessoa, gera uma comunicação baseada na responsabilidade, e não na culpa.

Por exemplo: “Eu estou preocupada com o tempo, gostaria que seguíssemos com a pauta da reunião”, em vez de “Vocês estão me deixando preocupada com essas conversas sem foco”.

Todo sentimento é um indicativo das nossas necessidades.

Quando temos sentimentos confortáveis, significa que temos necessidades atendidas.

Quando temos sentimentos desconfortáveis, significa que temos necessidades não atendidas.


3. Reconhecer nossas necessidades

As necessidades humanas universais são os nossos motivadores mais centrais.

Segurança, proteção, pertencimento, respeito, liberdade, autonomia, reconhecimento, valorização, são algumas palavras que expressam necessidades humanas universais.

Tudo que fazemos, fazemos na tentativa de atender uma necessidade.

Eu estudo para atender minha necessidade de aprendizado. Eu trabalho para atender minha necessidade de sustento e realização. Eu formei uma família para atender minha necessidade de pertencimento.

Por trás de toda violência, acusação, crítica ou julgamento, existe uma necessidade não atendida tentando ser expressada de forma trágica.

Por exemplo, quando julgo que “Eduardo não está nem aí”, existem necessidades não atendidas tentando ser expressadas.

“Quando vejo Eduardo usando o celular durante a reunião (OBSERVAÇÃO), me sinto incomodada (SENTIMENTO), porque preciso de reciprocidade e atenção (NECESSIDADES).”


4. Tomar consciência dos pedidos

Para ter assertividade e clareza na comunicação; para que nossas necessidades possam ser atendidas de forma efetiva, precisamos saber como queremos que isso aconteça.

A comunicação não violenta nos convida a identificar as ações concretas, realizáveis e em linguagem positiva que atendam às nossas necessidades.

Por exemplo, quando penso “Quero que Eduardo pare de usar o celular”, estou consciente do que NÃO quero que aconteça, ou seja, esse é um pedido em linguagem negativa.

Quando penso “Quero que Eduardo seja mais participativo”, estou dando espaço para que cada pessoa interprete à sua maneira o que significa “ser mais participativo”, ou seja, é um pedido vago passível de mal-entendidos.

Um pedido em linguagem positiva e com ações concretas que expressam o que estou pedindo poderia ser:

“Quando vejo Eduardo usando o celular durante a reunião (OBSERVAÇÃO), me sinto incomodada (SENTIMENTOS), porque preciso de reciprocidade e atenção (NECESSIDADES). Gostaria que ele me dissesse o motivo pelo qual ele precisa usar o celular naquele momento (PEDIDO).”


4. Fazer mais pedidos, e menos exigências

E se o Eduardo responder “não”?

Essa é a pergunta que irá responder se eu estou fazendo um pedido ou uma exigência.

Se ele responder “não”, e eu fizer julgamentos ou planejar punições, eu estava fazendo uma exigência.

Exemplo de julgamento: "se Eduardo não me disser o motivo pelo qual ele precisa usar o celular, significa que ele é mesmo um folgado."

Eu estaria fazendo um pedido se eu compreendesse que ele está tentando proteger necessidades dele ao me dizer “não”. E me abrir para perguntar “Por que não?” “O que é importante para você?” “O que atenderia suas necessidades também?”.

Ou seja, eu permaneceria aberta ao diálogo e à busca por estratégias que atendam às necessidades de todos.


Formas de praticar a comunicação não violenta no trabalho

Refletir (Autoconexão)

90% da comunicação não violenta acontece dentro de nós, antes mesmo de dizer uma única palavra.

Eu só sou capaz de dizer o que realmente preciso, se eu me escutar.

O que vi acontecer? O que senti? Quais eram minhas necessidades? Como eu gostaria que essas necessidades fossem atendidas?

Eu só sou capaz de me escutar, se estiver atenta ao momento presente. Por isso a importância das pausas para respirar e tomar consciência do que está vivo em mim.


Escutar (Escuta empática)

Depois de me escutar, posso, com a mesma qualidade de atenção, escutar a outra pessoa no nível de seus sentimentos e necessidades.

É preciso suspender, temporariamente, o desejo de dizer o que penso e abrir espaço interno para investigar:

O que aconteceu, do ponto de vista dela? O que ela deve estar sentindo? Quais devem ser as necessidades dela? Como ela gostaria de ter essas necessidades atendidas?

Até aqui, toda a prática da comunicação não violenta pode acontecer em silêncio, ou apenas através de perguntas.


Falar (Expressão autêntica)

Falar é preciso. Mas não falar por falar. Não falar “para” as pessoas. Mas falar “com” as pessoas.

Mensagem dada não é sinônimo de mensagem recebida, compreendida e necessidades satisfeitas.

Queremos falar com as pessoas para que elas realmente escutem o que temos a dizer, considerem nossas ideias e possam contribuir com as nossas necessidades.

Para isso, é preciso que a nossa fala não seja recebida como um ataque. Precisamos, o quanto for possível, deixar claro que soltamos nossas armas. Que saímos do jogo da competição e entramos no jogo da parceria.

Quais são as minhas intenções com o que vou dizer?

Essa é a pergunta chave. Afinal, suas intenções chegam antes das suas palavras.


Resumindo…

Praticar a comunicação não violenta não é ser gentil, mas sim, estar consciente.

Ela nos ensina a:

- Separar os fatos observáveis do que pensamos sobre as pessoas;

- Identificar e nomear os sentimentos por trás das críticas e acusações;

- Reconhecer necessidades por trás de qualquer ação ou fala;

- Identificar expectativas em forma de ações concretas e em linguagem positiva;

- Pausar e tomar consciência dos meus sentimentos, necessidades e pedidos;

- Escutar (sem julgar) os sentimentos, necessidades e pedidos dos outros;

- Me expressar tendo a consciência das minhas intenções.


Referências Bibliográficas:

Rosenberg, M. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. 1 ed. São Paulo: Ágora, 2006.

43 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo